domingo, 29 de setembro de 2013

Da Amizade

Caros,

Como tenho muito poucos amigos, posso não ser a pessoa mais indicada para escrever sobre este tópico. Ou, se calhar pelo mesmo motivo, possa até estar habilitado. Decidam vocês. :)

Devo começar por dizer que considero inadequadas aquelas idéias de "amizades leves". Dos amigos que podem passar anos sem se falar, mas que um dia se encontram e tudo está como se tivessem falado no dia anterior. Não digo que não aconteça aqui e ali. Mas é raro. E não é para mim.

Podia, se quisesse que este texto fosse muito curtinho, definir as amizades que considero verdadeiras como "intensas". Para mim, tudo o que é mesmo verdadeiro, é intenso. Vive-se com força. Com vontade. A base é, portanto, esta.

Penso que a amizade como sentimento é menosprezada e levada muitas vezes de forma leviana. Há quem chame amigo a qualquer um. E que, portanto, tenha para aí 300 amigos. É divertido e os momentos bons são maravilhosos. Mas é vazio. E esse vazio nota-se quando se precisa de um amigo. Quando se quer alguém por perto e, daqueles 300, às vezes não fica nenhum. Ou ficam 2. Tão poucos...

Os amigos verdadeiros são presentes. Procuram-se com regularidade. Querem-se por perto. E hoje, com os telemóveis, os sms, os chats e afins... É tão fácil. Haja vontade. Percebam que a amizade implica um sentimento de "gostar de", de cumplicidade, de partilha, de confiança, de interesse, de preocupação com o outro. E isto não é drama nem lamechice. É assim mesmo.

Arrisco mesmo a dizer que eu não preciso de dizer aos meus amigos que preciso deles. Porque eles conhecem-me o suficiente para saber. E porque estão presentes o suficiente para ver as minhas mudanças de comportamento e de humor. Quando algo se passa e ninguém nota, algo está errado. Ou sou eu que sou muito bom actor, ou... ninguém anda atento. E a atenção também faz parte. Da minha parte, acreditem, ando atento.

Não dá para ter medo de brigar com um amigo. Andar a medir palavras é contra-producente numa relação que se quer aberta e verdadeira. Acho que basta ter a consciência de estarmos a brigar por uma boa causa e com intenções verdadeiras e boas.

Penso que já deu para perceber que, com aqueles a quem chamo e considero amigos, sou exigente. :) Mas também não é por muito tempo. Se as pessoas não estiverem para aí viradas, não posso, não quero, nem devo obrigá-las a nada. Passam rapidamente a fazer parte do lote dos conhecidos (esses sim, são muitos). Mas dos amigos espero tudo o que já referi acima. E dou tudo (salvo seja). E, quem me conhece, sabe que estou SEMPRE pronto para ajudar e estar presente, nem que seja para ouvir. Penso que haverá poucas sensações tão calorosas e confortáveis como a de sentir-se acompanhado seja em que situação for.

Acho que quem quiser entender este texto com um aviso à navegação, pode fazê-lo. Estejam à vontade. É que, de qualquer forma, o resultado será sempre positivo. Nem que seja pelas revelações que daí possam surgir. :) Mas não me façam perder tempo com coisas que não valem a pena.

Amizade é, para mim, amor sem sexo e sem amassos. E sem sentimentos de exclusividade. De resto, está tudo lá. E conheço casos em que até o sexo e os amassos lá andam. Mas isso já dava para escrever mais um texto.

Este texto até pode ser demasiado curtinho para um sentimento tão intenso. Mas a simplicidade da coisa torna tudo mais imediato. É que, como em quase tudo na minha vida, a minha postura é a mesma: ou se é amigo, ou não se é. Simples. :)

Beijos & Abraços,

MP






quinta-feira, 26 de setembro de 2013

Do Mérito

Amiguinhos,

Ao contrário da maioria dos assuntos sobre os quais escrevo, o mérito não tem nada de subjectivo. E, quanto a mim, não está sujeito a muitas interpretações. Sou defensor acérrimo e convicto da meritocracia. Tudo aquilo que se consegue na vida (com a honrosa excepção de momentos de sorte) deve ser conseguido por mérito. Como resultado de bom comportamento ou de um trabalho bem feito.

Tenho para mim que as avaliações devem ser constantes. E a aceitação dessas avaliações é importante para uma vida de conquistas honestas. É claro que não defendo que se seja déspota e se possa avaliar coisas de forma negativa (ou positiva) porque nos apetece. Mas saber olhar e reconhecer mérito (ou a falta dele) é demasiado importante para ser feito por pessoas pequeninas ou inconscientes. 

Vou até ser polémico quando digo que não acredito em coisas como "contratos para a vida" ou "efectividade". Para mim, a continuidade das relações laborais e humanas deve basear-se exclusivamente nos desempenhos de cada um. Fez um bom trabalho? Trata bem a sua cara-metade? Então fica. Porque merece ficar. Se é displicente e trata mal as pessoas... fora! Há sempre quem queira trabalhar ou tratar bem uma pessoa. No caso particular das relações laborais, há países em que é mesmo assim. Resultado: toda a gente se aplica mais. Porque se não, há mais 50 000 à porta cheios de vontade de trabalhar e de ter uma oportunidade. E não tenho dúvidas de que quem tem sucesso (e partindo do princípio que não anda a dormir com o(a) chefe), tem-no por mérito.

É claro que um Mundo que se regesse apenas por meritocracia é utópico. Porque isso implicava que não houvesse venenos, que não se "emprenhasse pelos ouvidos", que não houvesse joguinhos de poder e que não houvesse sistemas viciados e instalados que corrompem e deturpam qualquer noção de mérito que se possa ter. Não peço tanto. Mas gostava sinceramente que assim fosse.

Até agora na minha vida tentei que, tudo aquilo que consegui, fosse por mérito. Por ter feito um bom trabalho. Por me ter portado bem com as pessoas, com as empresas, com o Público. Detesto cunhas e situações criadas em bastidores para viciar sistemas. Detesto situações de direitos adquiridos usados para intimidar quem, de forma justa, reclama de um trabalho mal feito. Não gosto que se dê trabalho a seja quem for por pena, por paixão ou por afinidade.

Na avaliação do mérito de cada um, devem ter-se em conta duas dimensões: a qualidade do trabalho apresentado e a contigência no qual o mesmo foi feito. Porque há coisas que escapam ao nosso controlo. E isso precisa também de ser tido em conta. Mas se avaliarmos o dessmpenho de cada um na sua área, sem procurar bodes expiatórios, quase que garanto a aplicação limpa da meritocracia que tanto defendo.

Em 17 anos de carreira profissional, investi tempo e dinheiro na preparação de tudo o que fiz. Nunca gostei de chegar aos sítios mal preparado. Sempre tive uma preocupação grande com a preparação das coisas. Em algumas alturas devo confessar que a preocupação era demasiada. Mas os aplausos, os elogios e a noção de que fiz o meu melhor, estiveram quase sempre presentes. Talvez por isso me tenham chamado novamente para as coisas. Talvez por isso tenha tido (até agora) alguma continuidade na actividade que exerço. Como nunca fui efectivo em coisa nenhuma, só posso ser levado a concluir que foi algum mérito que me trouxe aqui. Entendam que aqui não pode haver lugar a falsas modéstias. O que há é um olhar para trás, para o presente e para o futuro com segurança e consciência limpa. 

E tenham muito cuidado quando tratarem de forma injusta alguém que provou o seu valor e que demosntrou mérito puro e duro. É que, de todas as injustiças, esta é seguramente uma das piores.

Mas quero que a minha vida seja assim. A trabalhar, a viver de conquista em conquista. E sem bananeiras para me deitar à sombra.

Beijos & Abraços,

MP

quinta-feira, 19 de setembro de 2013

Da Solidão

Caros,

A solidão só por aí não me assusta. Às vezes é até necessária e salutar. Mas tem, como quase tudo na vida, várias variantes e várias vertentes. Aviso desde já que este é um tópico no qual, quanto mais se pensa, mais se chega a conclusões que, aqui e ali, não fazem bem à saúde.

A noção de solidão crua, sem mais nada, incomoda-me. A ideia do "não tenho ninguém" ou "estou sozinho no Mundo" pode até ser agonizante. Sente-se de vez em quando aquela sensação de "não ter chão" se nos acontece alguma coisa. A agonia de não termos para quem nos virar quando as coisas correm mal pode ser preocupante. Mais: quando realmente gostávamos de ter alguém por perto e, pura e simplesmente, não temos, a tristeza torna-se ainda mais profunda. E daí até ficarmos com pena de nós próprios é um passo. É uma espécie de bater no fundo...

Por outro lado, há alturas em que quero estar só. Preciso de estar só. Toda e qualquer companhia irrita-me. Acreditem que passear num jardim, num centro comercial, fazer uma viagem ou ir ao cinema sozinho pode, por vezes, salvar estados de espírito. Dá-nos clarividência e tempo para passarmos só com a pessoa de quem devemos gostar mais: nós próprios. Quem não aceita que os outros têm necessidade de estar sós, não sabe o mal que pode estar a fazer. Pode sufocar e afastar o outro. Seja por insegurança, ciúme ou maldade pura. Seja porque motivo for, não ajuda em nada. A tolerância, a aceitação e o amor que se possa sentir têm aqui um papel demasiado importante para ser descartado por causa de pensamentos pequeninos. A vontade de ajudar pode ser muito forte. A de perceber o que se passa também. Mas desistir e deixar o outro resolver a coisa também é boa ideia. E é de louvar.

Sabem quando é que a solidão me preocupa? É quando, apesar de estarmos sempre rodeados de pessoas, nos sentimos sós. E quanto mais expectativas temos de receber um sms, um abraço, um beijo, uma surpresa boa que nos faça sentir acompanhados, pior é a desilusão. E maior é a solidão. No princípio irrita-nos que, quem está à nossa volta, não nos compreenda. Depois, por gostarmos de algumas pessoas, aceitamos. Mas a sensação de vazio, de esperança perdida, de solidão extrema fica connosco. Se quisermos mudar de forma radical, precisamos de coragem. De força e de determinação. Mas devo confessar que são poucos os que o conseguem fazer. Largar todos os que fazem parte da nossa solidão acompanhada é uma tarefa hercúlea. Até porque, depois, a solidão pode ser outra. Pode ser pior. Pode ser maior.  E pode até não ter remédio.

Assim sendo, para combater a solidão povoada de gente, só conheço uma forma: criar um Mundo próprio onde só nós é que mandamos. Porque assim os sorrisos voltam. E as companhias passam a servir só para o que nós queremos. Quando nos queremos. Ainda que, fisicamente, nos sintamos obrigados a estar ao lado das companhias que temos, mentalmente podemos voar e desaparecer. E quem escolhe quando nos queremos sentir acompanhados somos nós. Quando precisarmos de companhia, abrimos a porta e deixamos entrar quem queremos, para o que queremos e durante o tempo que queremos.

Se há aqui uma dose de egoísmo? Claro que há. Mas evita males maiores.

Beijos & Abraços,

MP

quinta-feira, 12 de setembro de 2013

Das Palavras e Ds Atitudes

Amiguinhos,

Vai haver sempre quem fale e quem faça. Pessoalmente prefiro os que fazem. Mas tenho uma admiração tremenda por aqueles cujos actos acompanham as palavras. A coerência entre atitudes e palavras é para mim uma virtude. Que cada vez menos malta tem.

Devo confessar que uso muito as palavras. Falo e escrevo muito. Mas, ou por feitio ou por ter mesmo interiorizado o que digo e o que escrevo, acabo depois por fazer corresponder essas palavras às atitudes que tenho. E à minha maneira de lidar com a vida. Nem sempre a coisa corre bem. E as atitudes podem não ser sempre as mais correctas. Mas a ideia é ser fiel ao que se diz.

Associada à diferença entre palavras e atitudes está sempre a ideia de desilusão. Ou de surpresa. Também há quem fale de uma forma desprezível e depois se revele um ser humano bonito. Pelas atitudes que tem. Por outro lado, quem apregoa aos 4 ventos que é assim ou assado e que vai fazer isto ou aquilo deve, depois, ser ou fazer aquilo que apregoou. Para o bem e para o mal. Podem até ser reles e ter mau feitio. Mas são coerentes. E a coerência faz-nos saber com o que contamos.

O inverso é chato. Quando se diz que se é assim ou se vai fazer alguma coisa, as pessoas ficam a contar com isso. Novamente, para o bem e para o mal. E os mais precavidos até se preparam para isso. Os mais crentes acreditam e até esperam o que por aí vem. E depois, na ausência das atitudes apregoadas, aparecem surpresas. Agradáveis ou não. Quando são agradáveis, do mal o menos. Que venham as coisa boas! :) Quando são desagradáveis, lá se instala a tal desilusão. E, quer queiramos quer não, nunca mais olhamos para a outra pessoa da mesma forma. É natural que assim seja. É humano que assim seja. E ninguém nos pode censurar por isso. Já perdi a conta ao número de pessoas que disse "vou estar sempre aqui" ou "eu não sou assim" ou "eu sou diferente". E depois... não estavam e não eram. :)

Atenção: pensar melhor e andar para trás também é humano. Aí deve ter-se a humildade de explicar. De pedir desculpa. De avisar. Ou seja: uma frontalidade educada aplicada nas alturas certas evita desilusões. E evita que os outros tenham de nós uma ideia que, de outra forma, é perfeitamente legítimo que tenham.

Assim sendo, opto por, com algumas pessoas, não ter expectativas. Por não esperar delas coerência. É uma espécie de mecanismo que me permite aborrecer-me menos. Fazendo isto, tenho a certeza que as coisas boas que vierem, são surpresas. E as más... já estava à espera. 

Não posso deixar de vos dizer que considero todo este pensamento um bocado deprimente. E vou sonhar sempre com uma situação ideal, feita de pessoas e situações ideais. Se tiver de me isolar um bocadinho, que seja. Mas nos meus sonhos e pensamentos ninguém mexe. Porque nos meus sonhos a realidade pode até ser virtual. Mas é também potencial. Pode acontecer. E deixar de acreditar é, para mim, sufocante. E seca-me. E mata-me um bocadinho. E eu, enquanto for vivo, quero ESTAR vivo. Mesmo que seja só para mim. Mesmo que seja com um sorriso aparvalhado na cara. :)

Beijos & Abraços,

MP


quarta-feira, 11 de setembro de 2013

Dos Músicos

Caríssimos,

Tenho ouvido ao longo dos anos expressões como "os músicos são pessoas difíceis" ou "os músicos são uma raça do caraças". Pois... Percebo que se possa pensar isso. Mas reparem que não é bem assim.

Além de ser músico, lido com os meus colegas numa base diária há, pelo menos 17 anos. E que fique claro que tudo o que aqui escrever aplica-se também a mim. Mais: aplica-se, primeiro que tudo, a mim. Não sou especial, nem melhor, nem pior do que os outros. Poderei eventualmente ser diferente. Mas isso cabe, a quem me conhece, avaliar.

Não devemos esquecer que, associado a um músico está sempre um artista. Os que dizem que não são artistas, ou são mentirosos, ou são técnicos de música. E, neste último caso, não são músicos na sua acepção total. Tocar é uma coisa. Debitar notas de forma mecânica é outra.

A palavra artista traz consigo uma série de dimensões que, essas sim, podem ser difíceis de perceber. E, ou se tem pachorra para tentar perceber, ou não se tem. Tudo o que seja artista tem uma visão empolada da realidade. Ou de algumas vertentes da realidade. Tem a noção de como quer mostrar a sua arte às pessoas. Sabe de que condições precisa para tocar de forma descontraída e sentida, sem se preocupar com coisas que, se não estiverem de acordo, podem prejudicar a sua actuação. E acreditem que, se as condições forem satisfeitas, todos ganham. O Público, o Promotor do Evento e o Artista. Não há maneira de haver perdas. :)

Deve haver paciência, tolerância e aceitação quando se lida com músicos. E os músicos devem ter estas mesmas características quando lidam com não músicos. É tudo uma questão de adaptação e de bom senso. O que não pode haver é posições de força e braços de ferro tontos. Porque não se ganha rigorosamente nada.

Infelizmente, as noções de ego gigante e de mau-feitio também estão associadas aos músicos. Também conheço pessoas assim. Mas são facilmente identificáveis. E com estes as conversas devem ser claras, firmes e inequívocas. Porque se não forem, toda a relação daí para a frente torna-se tensa e contra-producente. E aí todos perdem. 

Tenho um colega e amigo músico que diz que "para falar com um músico sem criar fricções, é preciso saber o que é um Fá Sustenido". Pode não ser assim tão linear. Mas o princípio é exactamente este. Se falarmos com um artista sem mostrarmos interesse pelas especificações da profissão e sem sensibilidade por tudo o que é preciso para se mostrar arte, corremos o risco de levar com maus-feitios. Se o promotor de um evento se preocupa essencialmente em rentabilizar o que gastou e em ter clientes felizes, o artista preocupa-se só com as condições que ele considera adequadas (ou mínimas) para apresentar o seu trabalho ao seu público. E é da sensibilidade e do bom senso de ambos que nasce o entendimento que, regra geral, traz boas relações profissionais. Posso dar-vos um exemplo: se vou tocar num hotel, não posso exigir um palco com 10 metros de frente. Preciso de ter o bom senso de me adaptar às condições que existem. Posso (e devo), no máximo, apresentar sugestões para uma melhoria das condições. Por outro lado, não deve o hotel esperar que eu toque com umas colunas do tamanho de um rádio a pilhas. Ou com equipamento de som que funcione mal. Nestes casos, reclamar ou não fazer a actuação não é ser complicado. É ter bom senso. Porque se assim não for, quem nos ouve não vai gostar. E quem está no palco não é o promotor. É o artista. E ele é que será, perante o público, responsável pela porcaria que este acabou de ouvir.

Se os músicos são especiais? São sim senhor. Dominam uma arte que transmite emoção, alegria e diversão às pessoas. Mas são pessoas normais, com preocupações normais. Não devem, em circunstância alguma, ACHAR-SE especiais. Isso cabe a quem os ouve. E são pessoas que trabalham (uns mais que outros) para que todos saiam contentes. Porque músico que não trabalhe para si, para o seu Público e em harmonia com o Promotor do Evento, tem alguma coisa de errado.

Beijos & Abraços,

MP


terça-feira, 10 de setembro de 2013

Da Solidariedade

Amigos,

Vivo num País onde a solidariedade me é imposta. No qual sou obrigado a contribuir para um sistema de Segurança Social que, quando chegar a altura de ter proveitos, provavelmente terá já morrido. Pago todos os meses a reforma dos outros. Os subsídios dos outros. E pago sem reclamar. Ou seja, mesmo que seja por obrigação, sou solidário e ajudo outras pessoas.

Tenho para mim que a Solidariedade deve ser voluntária. Só ajuda os outros quem quer. Quem, de coração, quer fazer a diferença e tornar melhor a vida dos menos afortunados. Já perdi a conta ao número de vezes que, por minha iniciativa, fui solidário. Quer com bens alimentares, com dinheiro ou a participar como cantor/ músico em eventos desta natureza. Também perdi a conta às causas que ajudei. Mas não quero medalhas por causa disso. Nem nada que se pareça. Ninguém me obrigou e fiz porque quis. Mas tive de deixar isto claro para que se perceba que não sou contra a solidariedade. Pelo contrário.

Devo dizer que me custa ver tanta malta embandeirar em arco a apelar à solidariedade e a apregoar interesse pelo próximo. E quando chega a hora de contribuir... ah e tal, não posso. Não estou. Não pude ir. Afinal apareceu-me outra coisa. Esses, quanto a mim, deviam estar caladinhos no seu canto, pelo menos no que a estes assuntos diz respeito. Porque senão tornam-se hipócritas. E a hipocrisia é, para mim, uma característica deprimente.

Este texto vem a propósito de um evento de Solidariedade no qual participei no sábado, dia 7 de Setembro: o Maresia de Sons.  Vi lá gente cheia de boa vontade, com mobilidade reduzida, a tentar fazer alguma coisa válida para pessoas que precisam. Neste caso eram o pequeno David e as vítimas dos incêndios que assolaram a Madeira. E não se pedia para pagarem bilhete. Pedia-se que, se quisessem, fizessem uma doação da forma e valor que achassem melhor. 

Mas nem assim. Apareceu muito pouca gente. Custou-me cantar para um Parque de Santa Catarina praticamente vazio. E agradeço do fundo do meu coração aos que lá foram ver. Porque foi para esses, para o David, para as vítimas dos incêndios e para os meus colegas Artistas que cantei. Dei o melhor de mim e fiz o melhor que pude. Não porque era obrigado. Mas porque quis. Porque achava as causas válidas. 

Agradeço à organização o convite que me foi feito. E ao restante cartaz pelas prestações que teve. Ninguém se deixou ir abaixo. Mas estavam todos indignados.

Percebam: até podem argumentar que o cartaz não era apelativo. Mas a questão aqui não era o cartaz. Nem a promoção dos Artistas. Era a consciencialização. Eram as causas. E era o reconhecimento de quem, com entrega, com amor e, acima de tudo, por vontade própria, deu um pouco de si para ajudar os outros.

Shame on us. Shame on us...

Beijos & Abraços,

MP

sábado, 7 de setembro de 2013

Dos Dias Maus


Caros,

Gostava mesmo que todos os dias fossem bons. Que todos trouxessem sorrisos e esperanças, mesmo que fossem tontas. Que trouxessem novidades boas. Ou que, pelo menos, fossem feitos de sorrisos calmos. Mas não são. Nem todos são assim.

Ainda não consegui encontrar explicação para alguns dias de cão. É claro que há alguns que têm motivos claros para serem maus. Porque efectivamente aconteceu alguma coisa de mau. Esses, pela clareza com que se apresentam, ultrapassam-se bem. Nem que seja no dia seguinte. :)

Mas há outros que não têm explicação. Ou, se a têm, só a conseguimos descobrir depois de muita introspecção. Quando há paciência para introspecções. Ou depois de uma conversa de horas com alguém que nos possa ajudar a descobrir, afinal, o que foi. Mas devo confessar que, na maior parte das vezes, acabam por passar sem que eu perca muito tempo a pensar neles. Ou a procurar justificações para aquela sensação de alma vazia.

A sensação é que é má. Sabem quando, apesar de estarmos sempre rodeados de pessoas, nos sentimos sós? É mais ou menos isso. O problema que se afigura nestes dias é que, muitas vezes, estamos mesmo sós. Mesmo quando rodeados de gente. Porque a frequência de pensamentos e de sentimentos não é a mesma. E porque, honestamente, os outros têm mais que fazer do que andar a pensar se tivemos ou não um dia mau. E os que tiram um bocadinho para tentar perceber o que se passa, são menos ainda. Os que conseguem ajudar e tornar esses dias um bocadinho melhores... esses então são uma raridade. E, apesar de serem raridade, são um achado.

É realmente mais fácil descarregar reflexões profundas no facebook. E mandar bocas uns aos outros. Mas tocar na mão ou no braço de alguém, olhar com olhos de ver e ouvir com ouvidos atentos é mais difícil. Menos cómodo. Portanto, não o fazemos. Porque as nossas vidas são demasiado cheias para isso. E, se o fizéssemos, às vezes podíamos ter melhorado um bocadinho o dia de alguém.

Para mim é uma surpresa agradável quando alguém demonstra interesse no que aflige outra pessoa. Não pela curiosidade típica dos seres humanos. Mas pela vontade genuína de estar ali. De tentar minorar a coisa. De trazer uma perspectiva fresca sobre problemas alheios.

Costumo ter duas certezas que têm a ver com os dias maus: o de ontem foi melhor e o de amanhã será também melhor. Assim sendo, mesmo que não haja ninguém por perto, o regresso ao normal torna-se mais fácil. Nem que seja sozinhos. 

Cada vez mais me convenço que os dias bons são nossos e dos que nos rodeiam. Mas os maus são só nossos. E partilhá-los só traz maçada a quem nos rodeia.

Beijos & Abraços,

MP

quinta-feira, 5 de setembro de 2013

Dos Novos Talentos

Amiguinhos,

É altura de escrever mais sobre Música. E sobre arte em geral. Mas tenho uma preferência natural por aquilo que faço todos os dias. Assim, falo-vos hoje sobre novos talentos. E sobre as complicações que, para algumas mentes iluminadas, aparecem quando se fala de gente nova a fazer coisas boas.

Os novos talentos são para ser acarinhados. É claro que antes é preciso aferir se são mesmo talentos ou se são apenas "jeitosos". Por jeitoso deve entender-se todo aquele que até pode ter um certo jeito para a coisa, mas a quem ainda falta algum caminho a percorrer. E das duas uma: ou percorre esse caminho com a dedicação necessária, ou passa a vida a ser um jeitoso. Que não é carne nem é peixe. E o lugar desses não é nos mesmo círculos que os profissionais sérios. Aqui é importante não confundir talento com potencial. E mais: mesmo depois de haver alguma dedicação, pode chegar-se à conclusão que não passa apenas de "jeitinho". Nessa altura é importante dizer de forma inequívoca o que a pessoa em questão tem de ouvir. Para evitar situações constrangedoras que, nos casos piores, envolvam um Público que não tem culpa nenhuma.

Ser talentoso e estar pronto para fazer da Música profissão, são também duas coisas diferentes. Para se ser músico não basta tocar (ou cantar) 3 músicas do princípio ao fim. Implica ter um repertório relativamente vasto. E organizado. Implica saber os tons em que se canta e tê-los dominados e prontos para serem executados em qualquer altura. Importa saber o que se adequa aos espaços onde se vai fazer música. É fundamental ter repertório para se adaptar a qualquer tipo de público. De outra forma, vai haver constrangimentos que podem perfeitamente ser evitados.

Uma vez identificado um novo talento, deve-se incentivá-lo. Brigar e impor disciplina, se for esse o caso. Fazê-lo ver que as horas infindáveis de trabalho de casa são essenciais para depois haver momentos de felicidade e realização quando somos aplaudidos e temos o Público connosco. Que, não tiver estofo para isso, desista já. E não façam profissionais sérios perder tempo. Eu pessoalmente odeio que me façam perder tempo. 

Devemos também puxá-los para um palco quando estiverem prontos. Fazer por eles tudo aquilo que gostaríamos que fizessem por nós. Sem medos e sem invejas tontas. Porque há lugar para todos. E se o Público gostar mais deste ou daquele artista do que de mim, de que me vale tentar evitar seja o que for? Mais cedo ou mais tarde os melhores acabam por ser reconhecidos. E nada melhor do que sentir a satisfação de ter ajudado alguém. Sem interesses escondidos nem desejos de controlo.

Vou dar-vos um exemplo: há uma Cantora madeirense que recentemente despertou a minha atenção. No intervalo de uma sessão de estúdio, ouvi-a cantar baixinho. E o meu ouvido disparou porque gostou do que ouviu. Porque havia um "je ne sais quoi" que me alertou. Procurei-a depois. Conversámos e ouvia cantar a sério. Além de ser gira, canta muito. É afinada. E tem vontade de ser e aprender mais. Se essa vontade de mantiver, a menina vai longe. E eu vou fazer tudo o que estiver ao meu alcance para que isso aconteça. Porque talento daquele não é para estar fechado em casa. É para voar. Se eu puder dar uma ajudinha com umas assas extra, que seja. Vou fazer o que pouca gente fez por mim.

Mas nunca por nunca ajudem novos talentos para enaltecer egos. Nem esperem nada em troca. Façam-no porque sim. Façam-no para vê-los voar. E se a vida (ou a carreira) os levar mas longe do que vocês, fiquem orgulhosos. Sorriam sempre. E digam-lhes adeus com a consciência que fizeram tudo o que podiam.

Beijos & Abraços,

MP

quarta-feira, 4 de setembro de 2013

Dos Ciclos

Meninos e Meninas,

Tudo na vida é feito de ciclos. Digo mais: tudo na vida se gere por ciclos. Têm princípio, fim e têm pontos altos.

É claro que não podemos quantificar o tempo que levam os ciclos a completar-se. Se assim fosse, seria certamente mais fácil. Mas não teria, digo eu, tanta piada. Parte de estar vivo, de descobrir-se e de aprender constantemente é precisamente navegar pelos ciclos. Geri-los e deixarmo-nos gerir por eles. Aceitá-los como inevitáveis mas não pensar demasiado nisso.

Os ciclos têm sempre alturas boas e alturas más. Mas acabam por morrer na praia e passam a ser lembranças ténues de experiência. Tentar mexer com eles ou acabar com eles pode sair-nos caro. Porque não é natural. E aí as lembranças podem tornar-se constantes e dolorosas.

Não posso (nem quero) admitir que tenhamos de andar à deriva, à espera que os ciclos se completem. Temos a tendência de dar uma ajudinha. De fazer (ou forçar) o que julgamos ser melhor para nós ou para os outros. Acho que isso não é mau: é humano. Mas aqui, a capacidade de sofrimento e de ter esperança deve falar mais alto.

Por outro lado, acho que só nos apercebemos da noção de ciclo à medida que vamos envelhecendo. Porque aí, a vida já nos mostrou isso mesmo. Já tivemos algum tempo para olhar para trás e ver alguma tendência de repetição. Não necessariamente das mesmas coisas. Mas da existência constante de começos, meios e fins. Em última análise, a própria Vida é um ciclo gigante. Povoada de ciclos mais pequeninos. :)

As carreiras profissionais estão repletas de ciclos. Uns bons, outros maus. E outros que, pura e simplesmente, têm de acabar para dar lugar a coisas novas. A outros ciclos. À possibilidade de pôr em prática o que aprendemos para que, desta vez, tenha um resultado diferente. Para que desta vez o ponto mais alto do ciclo (aquele em que nos sentimos bem e na plenitude nas nossas capacidades), possa durar mais tempo. Pode demorar mais a entrar naquela curva decadente que caracteriza o fim dos ciclos.

Nas relações humanas acontece o mesmo. E aí não há volta a dar. Costumo dizer que parte de ser feliz é tratar os ciclos com respeito, mas sem medo. Geri-los e interferir com eles de forma dócil. Fazer o que nos manda o coração. Porque outra noção que é preciso ter é a de que quem faz os ciclos começar somos nós. Para o bem e para o mal. Chama-se a isto "livre-arbítrio".

A dicotomia entre deixar os ciclos acontecerem e poder interferir com eles, cinge-se uma vez mais ao equilíbrio. De sentimentos, de pensamentos e da capacidade de ponderação das atitudes.

Mas também não se preocupem demasiado: se a coisa correr mal, encostem-se e deixem fluir. O movimento cíclico encarregar-se-á, de uma forma ou de outra, de trazer as coisas de volta a uma normalidade mais experiente. Até começar outro.

E mais: sabem qual é a grande vantagem dos ciclos? É que as coisas e as pessoas que interessam não vão a lado nenhum. Esperam. E, ao contrário dos ciclos, são presenças constantes.

Beijos & Abraços,

MP